O T4 com jardim, em pleno centro de Lisboa, é como o showroom privado do seu proprietário, homem de gosto e sensibilidade apurados, que para aqui elegeu cada peça, cada revestimento de parede, cada detalhe, assinando inclusive o desenho de algumas peças de mobiliário.   

Texto: Isabel Figueiredo / Fotografia: João Peleteiro

O edifício de arquitetura contemporânea, localizado numa das artérias mais movimentadas de Lisboa, parece, à primeira vista, mais um projeto residencial incaracterístico, onde habitar se resume a usufruir da centralidade, da qualidade dos materiais e funcionalidades disponíveis. Talvez ainda pouco inspirados, acedemos ao apartamento T4, situado no piso 0, certos de que ali haveríamos de encontrar qualidade construtiva e interiores condizentes.

Não imagináramos, contudo, encontrar uma casa luminosa e tão acolhedora, onde a boa energia e a harmonia de cores e texturas das peças e mobiliário eleitos nos causaram, de imediato, uma boa impressão; não vislumbráramos, ao transpor as grandes portas de vidro da recepção do edifício, encontrar ali uma casa ampla e generosa em luz, com uma sala que se espraia à frente do nosso olhar tão grande como a satisfação, contida (e depois, ao longo do dia, demonstrada sem rodeios), de sermos recebidos por um jardim privado. Em plena cidade.

O seu proprietário, homem na casa dos 40, é tão generoso como a sua casa. Abre-nos a porta sabendo que, nas próximas horas, a sua intimidade será invadida. Ossos do ofício. Está neste apartamento há 13 anos – adquirido ainda em planta -, o que lhe deu margem para todas as transformações desejadas. Descobrimos, assim, estarmos perante alguém que não se contenta com ter apenas um teto confortável, rodeado de todas as comodidades. O nosso anfitrião vai mais longe nas suas critérios e elegeu cada peça, cada revestimento de parede, cada detalhe – até ao nível de alguns materiais – com conhecimento e rigor.

O chão de madeira de Riga que cobre o piso da casa em quase a sua totalidade, a pedra de lioz na cozinha e nas casas de banho, presente ainda no jardim e no exterior do prédio, reforçam a harmonia percepcionada. Ao entrar, o lavabo social, no hall, exibe um lavatório em pedra de lioz com desenho seu – bom exemplo da criatividade e bom gosto. Em frente, a cozinha, funcional quanto baste, tem janelas a dar para um pátio. Prosseguindo em direção à sala de estar, percorremos o corredor principal onde figuram, entre outros, o móvel de família, uma vitrine com boa parte da coleção de faianças da mãe do proprietário, e na parede junto ao acesso à cozinha um estudo de Nuno Álvares Pereira, assinado por um familiar. 

Dispomo-nos a invadir em primeiro lugar o jardim relvado, com mesa de refeições e zona lounge mas detemo-nos no espaço de estar, equipado com mobiliário de marcas de renome, algumas peças herdadas, entre elas desenhos, fotografia e pintura. Aqui, dispõem-se os sofás da Flexform, as mesas de apoio em ébano, feitas em Itália e com desenho próprio, os pufes da Balleri Italia, a cadeira lounge ABC em pele preta da Flexform e a mesa de centro. Há espaço ainda para um móvel de família e um estudo de Marie e Pierre Curie.

Encostado a uma das paredes, brilha o aparador lacado a encarnado, desenhado pelo dono da casa, com candeeiro-bola de vidro. Nesta parede, ainda, exibem-se o conjunto de pinturas e desenhos – a sua maioria assinado por familiares a quem a veia artística pulsou desde cedo, independentemente das suas atividades profissionais, algumas delas na área da medicina. Na parede oposta, a da lareira encastrada, figura um mural de papel pintado da Ananbô – Varanasi, aqui na versão sépia.

Da sala de estar acedemos à zona de refeições, divididas entre si pela porta de madeira deslizante. As paredes estão revestidas a papel pintado, também da francesa Ananbô, exibindo uma cena de Lombok, com verdes luxuriantes. Destaque para a mesa oval e as cadeira de Eero Saarinen para a Alivar, adquirida em Itália, e o candeeiro Catellani & Smith. Na parede, luminária da Zangra, muito subtil, que quando ligada é quase imperceptível deixando o protagonismo para o mural. 

O papel de parede, na qualidade de um dos materiais eleitos, domina na maior parte das áreas – o corredor e demais espaços da casa têm as suas paredes vestidas num cinza beije, com bonita trama, papel este adquirido na internet. Aqui expõem-se ainda obras de arte da família, salientando-se um dos muitos estudos feitos para um painel de 18 metros, para um tribunal de Castelo Branco, da autoria  do avô Martins Barata.

A partir deste corredor enfiamos por outro, de acesso aos dois quartos da casa e ao escritório. Neste, o destaque vai para a secretária do atelier Luísa Peixoto, ladeada por dois móveis livreiros, além de mais desenhos e aguarelas, sempre num registo de memórias que vão contando um pouco a história da família, aqui e ai.

Na suíte, nota de destaque para o móvel a toda a largura da parede, retro-iluminado e mandado fazer à medida exibindo, entre outras, a televisão com data do dia de nascimento do dono da casa. A gravura na parede da cómoda é assinada pelo avô e junto à cama exibem-se as mesas Eero Saarinen

Lá fora, o sol é intenso e apetece espreguiçar nos sofás e cadeiras. Do lado oposto, e junto às portas de vidro que comunicam com a suíte e o escritório, estende-se a mesa de refeições, com tampo de mármore também ela com desenho do proprietário. Estamos no centro de Lisboa. E estamos tão bem!